Quinta-feira, 9 de Julho de 2009
Guavirá Potí II
Quando entrar novembro
Encilharei meu pantaneiro tobiano
E junto com minha amada
Iremos faceiros catar guaviras.
Sentir os sabores perdidos da infância
Quando levantávamos antes do sol
Com matula de charque pilado já pronta
Cambuchís, corotes com água fria
Latas de querosene, cestos, baldes , bacias.
A gurizada, os primos, vizinhos, amigos
Em uma enorme e colorida romaria
Saindo dos bairros, vilas, da periferia
Deixando quase vazias as cidades
Ricos, pobres, índios, brancos, soldados
Gente de todo naipe e idade
Rumo as invernadas,
Por boiadeiras estradas...
A pé, á cavalo, de charrete, camionete
Carro de boi, caminhão , lombo de burro, bicicleta
Vai marchando a procissão humana, sem igual
Espalhando-se pelos campos, potreiros,
Em busca de um guaviral...
Da planta parideira de mel,
Prima famosa do araçá,
Da jaboticaba, pitanga, goiaba
Com suas moitas repletas de frutas
Verde-amarelo-azuladas
Doçura em infrutescência encapsulada.
Prenhada pelas mamangavas
Por cuícas e guaíquicas semeada
Alimento de veado, lobo, raposa, boreví
Gado alçado, cabrito, mão pelada, nhandú
Periquito, morcego, angujá, rato do mato, tatu ...
E atrás deles a jibóia , a jararaca e mboí chini.
Fruta sagrado dos guarani , mbayá e kaiowá
Que buscam em seus arbustos, suas folhagens
O casulo da borboleta branca, “panambí”
Para enfeitar seu instrumento de reza,o maracá .
Planta criada pelos filhos de Riú Riapú Guaçu
O Grande Pai Celestial
Para vingarem-se do tormento
De terem os jaguaretè –avá servido como alimento
Rachã Ruçú , a Grande Mãe,
Dos infantes guarani, Jacy e koararí.
Pelo povo-onça abatida, carneada, comida
As duas crianças então fizeram a guavira
E para os guavirais levaram os homens-onças
Fazendo passar por uma longa pinguela
Sobre um rio enorme, imenso
E deram-lhes a morte por afogamento
Para reparar tamanho sofrimento.
Dando assim início a era do Avá-etê
O Homem Puro, Verdadeiro, sem mácula
Em substituição aos homens-jaguaretê
Ficando apenas o último jaguaretê–avá da fila
Que pulando para trás se salvou da vingança
Sendo hoje o antepassado de todas as onças.
Guavira, planta dos amantes e dos apaixonados
Que chamam a amada de “ Flor de Guavira “
A menina nova de “ Guavira em Flor “
Se for na fronteira é “Guavirá Potí”
Que é flor de guavira em guarani
Guavira remédio para muitos males
Há muito conhecida e mui usada
Por parteiras e benzedeiras
Por seu poder curativo, adstringente
Com o chá de suas folhas
Cura a dor de barriga de toda gente...
E se busca um revigorante
Para um corpo cansado da lida
Para expulsar a fraqueza
O desânimo que o corpo abate
Basta colocar uns ramos da planta
Misturado á erva cancheada
Na hora de se tomar o mate...
Nas casas grã-finas ela é licor
Servido em pequenos cálices de cristal
Nos ranchos humildes sua casca dá sabor
Á canha , á pinga,á cachaça, a aguardente.
È o uísque escocês da pantaneira gente.
E na cidade com suas delícias
Graças ao conforto da eletricidade
O fruto sagrado transforma-se em picolé e sorvete
Tem até quem faça mouse com chocolate!!!
Guavira, guaviroba, guavirova, guabirá
Não importa o nome que se dá
Na fronteira virou verbo mui usado
Se a alcunha de paraguaio é mandioqueiro
De sul mato-grossense é guavireiro
E quem anda pelos matos, campos,
Estradas de fazenda, namorando,
Dizem que está é guavirando...
Infalível para marcar a gestação
Das crianças docemente concebidas
Em meio as dulcíssimas frutas
No afã de um abraço, um beijo, uma mordida
Os corpos se enleiam como cobras
Impossível resistir á atração.
Os guavirais estimulam os “ demônios”
Os “demônios” estimulam os hormônios
Os hormônios estimulam casamentos
Para a aflição de pais e mães ciumentos.
E daí a nove meses...
há uma farta parição
Nos meses de julho e agosto
Dos “ filhos da guavira”
Mantendo sempre viva a tradição
De que chupar guavira junto
Reforça a amizade, cria cumplicidade
e une o coração.
Da grande família das mirtáceas
Que habitam o Brasil Central
È a que tem do povo a devoção
E se não fosse Mato Grosso do Sul
Conhecido como o Estado do Pantanal
Com certeza eu diria
Que um novo nome apropriado seria
O “Estado do Guaviral “.
Marcus Antônio Karaí Mbaretê Ruiz
(www.oabms.org.br)
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário