MS 30 Anos: do orgulho ao nada
O jornalista Sergio Cruz, membro da Liga do Estado do Pantanal responde a artigo publicado na edição de hoje do Correio do Estado, como título acima assinado pela a professora Marisa Bittar, de São Carlos, Estado de São Paulo.
MARISA BITTAR - É no mínimo lamentável que ao completar as suas três primeiras décadas de história, Mato Grosso do Sul seja brindado com a extravagante controvérsia sobre o seu nome. Pobre Estado, que apesar do seu potencial, não consegue se projetar para o futuro porque, mais uma vez, as suas elites mostram despreparo para exercer a função de dirigentes, tarefa que exige autoridade moral e intelectual.
SERGIO CRUZ - Se existe controvérsia, por mais extravagante que possa ser à articulista, é porque existe uma significativa parcela da sociedade que não aceita o Mato Grosso e quer ter um nome próprio para seu Estado. Quanto à falta de projeção, esta não deve ser atribuída somente à elite dirigente. Aliás, o dirigente é o reflexo de seus dirigidos. Mato Grosso do Sul é vítima de um conservadorismo retrógrado e conformista, que estamos tentando superar. São Paulo sempre nos submeteu política e economicamente. Nós nunca reagimos à altura. Quem podia reagir colocou-se em posição de humilhante subserviência. Exemplo: estão em Mato Grosso do Sul as maiores hidrelétricas do Sudeste brasileiro e a energia de Mato Grosso do Sul é a mais cara do Brasil. Na divisão de Mato Grosso, os recursos que viriam para o Estado nascente foram desviados para o remanescente. O próprio topônimo nos foi imposto. Estes dirigentes sempre aceitaram as fórmulas e soluções das elites, das quais não se pode reclamar autoridade moral e intelectual. Faltou-lhes a ousadia para os grandes desafios. Mas isto está mudando.
MARISA BITTAR - Desde 2007, quando se completaram três décadas da divisão de Mato Grosso e, agora, em 2009, quando deveríamos estar refletindo sobre os trinta anos de Mato Grosso do Sul, é surpreendente que nenhum dos nossos poderes constituídos, seja o Executivo, Legislativo ou Judiciário, tenha proposto à sociedade reflexão sobre o que fomos nesse período e o que queremos ser no futuro e que tenham, por omissão, deixado de exercer a função de dirigir, isto é, de projetar iniciativas que objetivem o desenvolvimento econômico, social, político e cultural para todos. Esse vazio, por si só revelador, encontra agora um par perfeito: a volta da falsa polêmica sobre o nome de Mato Grosso do Sul.
SERGIO CRUZ - Não vivemos nenhum vazio, nenhum caos. Vivemos uma vida política intensa e, graças a nossa capacidade de reflexão produtiva, estamos superando todos os entraves ao nosso desenvolvimento, rompendo, principalmente, as barreiras aparentemente intransponíveis do derrotismo daqueles que, de longe ou de perto, torcem para dar certo suas previsões infelizes. A polêmica sobre o Estado do Pantanal não é falsa. É tão legítima quanto a campanha divisionista.
MARISA BITTAR - Dessa vez a “inquietante” questão ressurge por conta da Fifa, que, supostamente, por confundir Mato Grosso do Sul com Mato Grosso e por desconhecer que “o Pantanal é aqui”, escolheu Cuiabá como uma das subsedes da Copa de 2014. Divulgada decisão, os defensores do turismo, da visão pragmática e utilitária da vida, para os quais a complexa vida econômica, social, histórica e cultural do Estado está reduzida a uma projeção de marketing, logo encontraram o culpado pela desgraça. E quem poderia sê-lo senão o nosso próprio nome¿
SERGIO CRUZ - A causa do Estado do Pantanal transcende a episódio da Copa do Mundo. Há mais de dez anos estamos defendendo a idéia que não está reduzida à projeção de marketing. A discussão é ampla e abrangente, com alcance econômico, social, histórico, geográfico e cultural. A partir das razões econômicas apontadas, não se exclui esta questão do marketing. Afinal, uma mudança deste tamanho tem que considerar todos os aspectos da atividade humana. A mudança de Terra de Santa Cruz para Brasil não teria sido uma imposição mercadológica¿
MARISA BITTAR - No entanto, nenhum dos que se converteram em magistrados para julgar a identidade de Mato Grosso do Sul como um “apêndice” de Mato Grosso se deu ao prosaico trabalho de verificar o mapa da federação brasileira, pois, se o tivessem feito, constatariam a evidência de que a decisão da Fifa decorreu em um imperativo geográfico: caso fosse escolhida Campo Grande, os jogos estariam concentrados na região centro-sul do País. Sediados em Cuiabá, melhor representarão, geograficamente, a Federação. Mas isso os defensores da “mudança” não podem admitir porque desde o início deram à propaganda o tom lamentável de disputa antiga e litigiosa que caracterizou a divisão de Mato Grosso. Ficou patente e foi explicitado pelos dirigentes do futebol brasileiro que o tom dado à campanha publicitária era totalmente impróprio e descabido. Entretanto, a seqüência de desatinos não parou aí, pois após o insucesso, o marketing frustrado resolveu aliar a sua mal pensada estratégia a um vilão, que, naturalmente, tinha de ser o indefeso nome de Mato Grosso do Sul. De quem mais poderia ser, afinal¿
SERGIO CRUZ - A conclusão da professora para a escolha de Cuiabá para subsede da Copa de 2014, não resiste à mínima confrontação do mapa do evento no Brasil. Pela lógica de sua estapafúrdia geografia, Natal (no Nordeste) não teria a menor chance de ser incluída, e Goiânia não teria como ficar fora. O termo “indefeso” utilizado para indicar o nome atual do Estado, não tem nada a ver. O Mato Grosso do Sul é um nome forte e aparentemente imutável, sem contar com o vigor da eterna vigilância de conservadores renitentes o obtusos, que querem transformá-lo em dogma. A idéia da mudança é o de completar o processo emancipacionista, com uma denominação apropriada, do ponto de vista histórico e geográfico, e que evite a confusão provocada pela semelhança com o outro Mato Grosso.
MARISA BITTAR - E assim, depois de trinta anos, na ausência de projetos políticos que justifiquem a existência de Mato Grosso do Sul ou que pelo menos deem um significado justo à divisão de 1977, encontramos finalmente, uma forma de comemorar o seu aniversário, engajemo-nos todos na importante missão de lhe dar um novo nome! Deixemos de nos preocupar com a crescente tensão fundiária, com o nível de educação pública, com a forma pela qual o poder e a política são exercidos no Estado, com questões enfim que dizem respeito à sua infraestrutura e às políticas públicas. Por que nos preocupar com assuntos tão espinhosos se existe um que pode resolver todos eles de uma só vez¿ Por que empregar nosso tempo em demoradas ações de longo alcance se temos a sorte de contar com setores do marketing, da mídia e das elites políticas, que estão nos mostrando o verdadeiro caminho, a mágica capaz de solucionar todos os problemas e redimir Mato Grosso do Sul da insignificância de ser um “apêndice” e, elevá-lo, finalmente, ao patamar da grandeza que serviu de bandeira para a sua criação¿
SERGIO CRUZ - Mato Grosso do Sul é um Estado plenamente justificável. Somente quem o vê de longe não consegue enxergar seu significado, despreza os avanços, sobretudo na distensão fundiária, na formulação de políticas de incremento à educação pública e à infraestrutura urbana e de transportes. Nosso Estado não é o melhor do Brasil, mas não está entre os piores. O nome é apenas um detalhe importante. Em nenhum momento o Estado do Pantanal foi apresentado como panacéia. No máximo, um topônimo histórica e geograficamente compatível. No mínimo, um nome inconfundível. Tudo isso.
MARISA BITTAR - Ao chegarmos aos trinta anos pelo menos não poderemos dizer que as elites políticas sul-mato-grossenses não mudaram. Superada a fase daquela que defendeu o regime militar e criou a falácia do “estado modelo”, do suposto exemplo que Mato Grosso do Sul seria ao se apartar do norte, chegamos à era do nada, do vazio de direção, da constatação de que vamos à deriva, e de que, por isso, ficamos à mercê de fatos episódicos. É frustrante reconhecer que, depois de trinta anos, a capacidade de semear ilusões, de subverter a ordem de importância das coisas, de colocar no centro o que é periférico, substituindo os grandes temas que deveriam compor a agenda política do Estado é o sinal da incompetência para compreender as razões que permearam a criação de Mato Grosso do Sul e enfrentar o desafio de um projeto para o seu futuro.
SERGIO CRUZ - Desconhecemos o Estado a que se refere a autora. A falácia do “estado modelo” não teve origem local e, mesmo diante dos percalços de trinta anos de crises políticas e econômicas, Mato Grosso do Sul atingiu índice satisfatório de desenvolvimento. Aqui os grandes temas fazem parte de nossa agenda política e a solução de nossos problemas mais cruciais dependem muito mais de recurso financeiro que de projetos. O Estado do Pantanal não é uma questão periférica, nem a sua discussão subverte a importância das coisas. Se fosse um fato episódico, certamente não estaria tomando o precioso tempo da nobilíssima articulista.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
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