domingo, 12 de julho de 2009

01/11/2003 20h36min

Mato Grosso do Sul, Sul de onde?
(www.radialistasms.org.br/ver_art.php?id=6)

Lizoel Costa

Nasci numa capital onde as ruas correm largas e sossegadas. Sou de uma cidade que nem sempre ostentou esse título nobre, esse porto de referência de um estado. Sou de Campo Grande, pólis nascida ao sul de um dividido estado, território de muitas culturas e guerras, o Mato Grosso uno que forjou homens nobres e bandidos, que engoliu através de guerras injustas, um bom pedaço do território paraguaio. Enfim, sou sul-mato-grossense que já ostentou em outros tempos, nos documentos de cidadão um MT que ficou para trás na divisão do estado em 11 de outubro de 1977. No entanto, continuo me sentindo um cidadão sem identidade cultural. Solenemente o país inteiro continua a ignorar a existência no cenário geopolítico brasileiro de dois "Mato-Grossos".

Já perdi a conta de quantas vezes li e ouvi trocarem o nome do meu estado querido. Enfio meu cérebro numa competentissima paciência, desembainho maliciosamente mais uma mentira diplomática e aguardo a lucidez companheira me salvar de me tornar um cidadão antipático, mas é difícil! E essa história, para nós, já deu frutos perversos. Quantos cidadãos incautos são mandados pelas companhias aéreas, para Cuiabá por conta da ignorância brasileira em relação ao nome do estado? 64 % do Pantanal fica em Mato Grosso do Sul, e os pacotes de viagens internacionais embarcam turistas em peso para Cuiabá.

Evito cair no ranço regionalista de criticar por essa situação ímpar, nossos irmãos cuiabanos (até porque sou neto de um), pois o problema não é deles. Quando um autoritário regime militar dividiu o estado sem consultar todos os interessados (como é de praxe nas ditaduras), os cuiabanos foram mais espertos e ficaram com o antigo nome.

Pois eu digo que sou de um estado que quase não existe no imaginário brasileiro: Mato Grosso do Sul... Sul de onde? Para existir um Sul tem que haver um Norte obviamente. Esse mesmo Norte que deveria ficar registrado no nome do estado irmão e por contingências, conchavos e autoritarismos foi suprimido na calada dos gabinetes de Brasília, nos estertores dos anos de chumbo.

Desde 1999, por conta da chegada do PT ao governo, através da vitória de José Orcírio Miranda, o assunto da mudança do nome do estado ganhou uma certa discussão em várias esferas sociais. Muitos compraram a idéia de se mudar o nome para Estado do Pantanal. Criou-se por aqui, uma Liga Pró-Estado do Pantanal, formado por artistas, empresários, jornalistas e até com a aquiescência do grande poeta Manoel de Barros, nascido em Cuiabá, mas Sul-mato-grossense de criação.

Uns tantos torceram o nariz para a mudança do nome, talvez eivados pelo preconceito de serem chamados de “Pantaneiros”. Outros, apesar de históricos apoiadores da divisão, não concordaram com a brigada da mudança: Não queriam deixar de ser “mato-grossenses”. Um amigo, o médico e jornalista campo-grandense José Palhano, definiu bem essa última situação: “Quando se brigou pela divisão, nós do Sul do Mato Grosso já deveríamos estar preparados para romper com tudo. Mudanças tem que ser radicais, ou então anula-se o papel da divisão e voltamos à situação antiga”.

Pois é... Complementando a idéia do primeiro parágrafo, digo que nasci num estado à procura de identidade, assim como os seis personagens de Pirandello procuram por um autor. Noites e dias pelas ruas e estradas do estado, vivemos a mocidade, maturidade e a grande experiência da velhice, procurando não fazer parte de canções esquecidas, brigando contra os parasitas da saudade, tecendo o nosso tempo e procurando não cair na vala comum das bolas em escanteio.

Somos sul-mato-grossenses, somos brasileiros e orgulhosos de nossa origem como qualquer outro compatriota. Não somos uma metáfora escancarada de uma divisão, que, apesar de necessária, feita na meia-luz dos gabinetes do círculo de amigos de El-Rei. Somos um estado exuberante, onde a flora e a fauna estão entre as mais ricas do planeta. Temos tudo a oferecer aos irmãos brasileiros e estrangeiros. Só queremos ter um nome próprio, e deixar de ser eternos confundidos.

Lizoel Costa – Jornalista, músico ex-integrante da banda paulistana Língua de Trapo e sul-mato-grossense convicto.

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