opinião
Carta aberta a Arieis Santana
(Correio do Estado, 05-08-2009 - pagina 2)
Leio sua carta de 15 último, endereçada ao prefeito e aos deputados. Cabe a
eles respondê-la, mas como não é uma correspondência pessoal e trata de
assunto de interesse geral permito-me tecer alguns comentários sobre o seu
teor. Em primeiro lugar, quero dizer que li todas as obras do saudoso
professor Barbosa Rodrigues e delas, ressai sua angústia exteriorizada em
seguidos artigos no “Correio do Estado,” onde o emérito acadêmico pressentia
o caos da semelhança de nomes dos dois Estados ao sugerir o gentílico
matogrossulês ou matogrossulense para o Estado nascente. Ele não concordava
com o sul-matogrossense, até porque este é o adjetivo pátrio de quem nasce
no Sul de Mato Grosso.
Quanto ao respeitável publicitário Ricardo Duailibi, nosso conterrâneo, este
esteve em Campo Grande na abertura da Liga do Estado do Pantanal, há pouco
mais de nove anos e proferiu conferência no Palácio Popular da Cultura sobre
a importância da nova denominação. E o que ele disse na ocasião (e eu tenho
gravado) foi que, nem uma campanha de cinquenta milhões faria o Mato Grosso
do Sul pegar e o Estado do Pantanal, por ser conhecido em todo o mundo, não
precisaria sequer de campanha publicitária.
Os divisionistas Paulo Coelho Machado, Vespasiano Martins e outros citados
em sua carta nunca foram ardorosos defensores do Mato Grosso do Sul como
denominação para o Estado que pleiteavam. O patriarca da divisão, Vespasiano
Martins, defendeu Estado de Maracaju, exatamente porque tinha o senso da
divisão completa e definitiva, onde não houvesse a menor dúvida de nossa
separação política total. Me desculpe se isso lhe ofende, mas a sua tese é a
de quem era contrário à divisão do Estado, fundada no paradigma cívico:
nasci matogrossense e quero morrer matogrossense.
Concordo com o fato de que é “muito mais distinto; é muito mais charmoso; é
muito mais erudito; é muito mais melodioso ser chamado de SUL-MATO-GROSSENSE
do que pantaneiro ou pantanense. O Mato Grosso do Sul é realmente um nome
expressivo, forte e marcante. O problema é que há uma tendência natural à
abreviação e simplificação dos nomes. Não há cidade, estado ou pessoa com
nome com mais de duas palavras que não passe por este fenômeno lingüístico,
onde Rio Grande do Sul é Rio Grande, Rio Grande do Norte é Rio Grande, São
Sebastião do Rio de Janeiro ficou apenas Rio, Ribas do Rio Pardo, Ribas e
Mato Grosso do Sul, lugar comum, reduz-se a Mato Grosso. Não se trata de
trocar o nome e sim de tratar pelo primeiro nome. Quem nos chama de Mato
Grosso, aqui ou alhures, o faz não por falta de conhecimentos elementares de
geografia, mas por comodismo.
Em sua carta são citados dois exemplos de acidentes geográficos glamurosos
que não teriam servido de motivação para mudança de nome de seus Estados:
Cataratas de Iguaçu e Baia de Guanabara. Iguaçu foi o nome escolhido pelos
separatistas que em 1972 tentaram criar um Estado a Oeste do Paraná e
Guanabara (não sei se é de seu tempo) foi o nome de um Estado oriundo da
transformação da cidade do Rio de Janeiro, em 1960 (o chamado município
neutro) em unidade da federação, exatamente como compensação pela mudança da
capital federal para Brasília.
Por fim, há um Mato Grosso muito mais notável tolhendo nossa identificação.
Tive muito orgulho de ser matogrossense, tenho orgulho de ser
matogrossulense e serei, orgulhosamente, pantaneiro mesmo.
Sergio Cruz
Jornalista
sergiocruz@viamorena.com
quarta-feira, 17 de junho de 2009
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