Mudar ou não o nome do estado
20/06/2009
(midiamax.com)
Angelo Arruda
Arquiteto e Urbanista, professor da UFMS e Presidente da Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas – FNA.
Há uns anos atrás fiz parte de uma articulação que discutia e defendia a mudança do nome do Estado de Mato Grosso do Sul e fui um fervoroso apoiador. Participava de reuniões toda segunda-feira pela manhã e cheguei a viajar pelo interior debatendo a mudança do nome de Mato Grosso do Sul para Estado do Pantanal.
Naqueles anos 1998 governava o Estado o bancário Zeca do PT e, o seu governo, resolveu fazer uma aposta: apoiar a discussão da mudança do nome e apoiar a Escola de Samba Salgueiro, com 1 milhão de reais e o samba enredo deveria falar do Estado do Pantanal.
Se tínhamos alguma perspectiva de sucesso na empreitada, pois o momento era favorável, foi naquele momento que nosso movimento começou a fazer água, pois aquilo que era uma movimentação empresarial, do turismo, meio ambiente, cultura, etc. se transformou em uma discussão política e grande parte da sociedade logo pensou: o nome Estado do Pantanal, vai gerar a sigla do novo Estado “PT” e o gentílico normal seria pantanense, confundindo com o tradicional Pantaneiro. Essa associação foi o pomo da discórdia.
Logo fomos taxados de adesistas ao governo Zeca por discutirmos uma vontade do governador. O movimento ficava mais se explicando do que discutindo as propostas. E para piorar, quando veio o samba enredo, a letra não se encaixava muito bem e ai foi pedrada vindo de todos os lados e logo alguém apareceu dizendo que o dinheiro teria sido gasto à toa. Nesse contexto, um grande evento foi montado pela TV Morena, no Palácio Popular da Cultura, algo muito sério, pois foram convidados os defensores da mudança e os defensores da manutenção do nome.
O publicitário Duailibi foi escalado para defender a mudança e a Prof.ª Marisa Bittar uma das que defendiam a manutenção do nome Mato Grosso do Sul. O que não sabíamos é que, havia uma pesquisa feita, encomendada pela televisão e que foi anunciada ao final do evento, com transmissão ao vivo e tudo o mais e naquele momento, um balde de água fria foi jogado, pois, segundo a pesquisa mais de dois terços da população queria manter o nome como estava e sugeria investimentos em publicidade para que o povo brasileiro para de achar que moramos no Mato Grosso. Naquele momento, senti o quanto as coisas no nosso Estado são às vezes, muito difíceis de serem encaminhadas.
Naqueles anos de 1998, em pleno governo FHC, o Estado estava em processo de recuperação econômica, mas não havia investimentos para o futuro e tudo que se queria era colocar em discussão a possibilidade de reverter um quadro danoso de pouca prosperidade e perda de valores culturais e sociais do povo. Até a recuperação da NOB foi, por nós, lembrada. Bem, esse era o quadro na época. A proposta da mudança de nome foi logo enterrada e nunca mais se precisou discutí-la. Passados mais de 10 anos, o assunto voltou à tona e em qual momento? Quando perdemos a disputa para Cuiabá de uma vaga para a Copa 2014 e a nossa auto-estima estava no chão.
Relembro a história antiga para tentar fazer um link entre o passado recente e o presente e o que vejo é a mesma coisa. Quando perdemos nossa auto-estima e nossa capacidade de sermos fortes e mais nacionais, pensamos na mudança. Extremamente salutar, mas qual o momento em que vivemos? O ano de 2020 se avizinha e com ele novos paradigmas anunciados pela imprensa nacional.
Em matéria recente da Revista Época, comemorando 11 anos de existência ela somou mais 11 anos aos 2009 e chegou em 2020 e chamou diversas matérias para anunciar coisas do futuro, novas profissões, novos problemas e um monte de suposições que cabe-nos acreditar ou não. Assim caro leitor. Coloco em discussão a discussão de mudar em nome em face da discussão do nosso futuro. Ou seja, quais os planos para o futuro de Mato Grosso do Sul? Sermos Estado do Pantanal é uma vantagem enorme?
Fiquei muito contente com os dados publicados essa semana que dão conta do Pantanal ter 85% do seu território preservado e parabenizo todos os proprietários da região, mas isso não ajuda um milímetro à discussão do novo nome por um motivo simples: o outro Pantanal, no norte, está também preservado como esse do Sul? As notícias de desmatamento no Mato Grosso afetam o Pantanal deles enquanto o nosso é preservado? Pecuária aqui e lá; garças aqui e lá; hotéis aqui e lá; turismo mais lá do que aqui, isso é dado do Ministério do Turismo e isso deveria nos incomodar mais.
Ainda penso que a discussão do nome do Estado é uma discussão importante, pois embora sendo pernambucano de origem e alagoano de nascimento, recebi da Assembléia Legislativa em 2004 o titulo de cidadão sul-mato-grossense e como viajo muito pelo país ainda não encontrei ninguém que se refira a Mato Grosso do Sul quando digo que moro em Campo Grande e sempre tenho que falar dos dois Estados.
Entretanto, quero aqui discutir: depois de 30 anos de existência, o que precisamos fazer para que sejamos reconhecidos como um Estado que tem ligações históricas, geográficas e culturais com o de cima, mas que temos nossas relações paulistas e mineiras que eles não tem? O que devemos fazer para não permitir que pessoas cultas e bem informadas quando chegam ao Estado achem que aqui é Mato Grosso? O que faz um magistrado mandar prender um bandido em Campo Grande e despachar “ em Mato Grosso”?
Tem coisas que precisam ser mais bem discutidas e esclarecidas, mas creio que essa nova celeuma que o Deputado Arroyo e outros parlamentares levantam, deveria ser tratada como uma questão de desenvolvimento. A melhor idéia é para e discutir. Fazer seminários em todas as cidades, depois um estadual e por fim uma Audiência Pública com Plebiscito ou não, onde cada um dos lados- os prós e os contras defendam suas idéias, antes que uma pesquisa dizendo que mais de dois terços são contrários provoque a falta de discussão. Isso volta a me incomodar, pois não permitiria a discussão de idéias.
Por fim, penso que seria importante a mesma Assembléia Legislativa que levanta a bandeira do assunto, também possa levantar a bandeira do desenvolvimento e do futuro e junto com o Executivo, Judiciário, Universidades, Sindicatos e entidades da sociedade, pactuar a idéia de um Estado sonhado pelos que lutaram pela divisão, mas que até agora não se firmou como tal. Talvez esteja aí a nossa maior bandeira.
domingo, 21 de junho de 2009
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