Jornal de Domingo (CG) - Edição 808
Noticia de: 06 de Junho de 2009 - 15:48
Mudança de nome para Pantanal volta em cena
Apesar da polêmica, o nome Mato Grosso do Sul entra em discussão novamente
A identidade de uma região não se mede simplesmente pela sua existência, mas também pelo reconhecimento que se tem dela, por essa falta de reconhecimento e identidade é que acontece na próxima quarta-feira (11), às 9h, no Plenarinho da Assembléia Legislativa, a primeira reunião para discutir a organização do movimento que poderá iniciar a mudança do nome do Estado de Mato Grosso do Sul.
Além da Liga Pró Estado do Pantanal, da qual fazem parte artistas como Manoel de Barros e Geraldo Espíndola - foram chamados o Fórum Estadual de Cultura, a Fundação de Cultura, o Trade Turístico de MS, a OAB/MS, o Sebrae, Fiems e também universidades, sindicatos, secretarias de Estado como a de Educação; e de Produção, além de órgãos de imprensa e outras entidades representativas da sociedade. Na seqüência de eventos que deverão criar espaço para que a população do Estado manifeste sua opinião, deverão ocorrer: Audiência Pública com ampla participação da sociedade, debates, palestras, consulta popular e campanha de divulgação.
Quanto aos aspectos legais da mudança do nome de MS pode-se dizer que é um fato inédito, sem antecedentes na história do Brasil, uma pesquisa jurídica tem sido feita para conferir a capacidade para uma ação deste porte para saber de quem é a competência, se da Assembléia Legislativa de MS ou do Legislativo Federal. Mas segundo o coordenador da Liga Pró Estado do Pantanal, Wagner Sávio, "há diversos exemplos de mudança de nomes de países e cidades, como, por exemplo, a Abissínia que foi o nome da Etiópia até o início do século 20, o Paquistão Oriental foi província do Paquistão no período de 1947-1971, depois disso tornou-se Bangladesh. Estes são exemplos relevantes divulgados pela grande imprensa. O caso de MS terá também especial relevância, tendo em vista a polêmica envolvida e o próprio bioma pantaneiro, considerado um patrimônio natural da humanidade, do qual seremos os "guardiões", de fato e de direito, incorporando em nossa identidade e em tudo que produzirmos".
O médico pediatra e jornalista José Antonio Palhano se empenhou para que a mudança acontecesse, mas hoje está desanimado devido aos desaforos que sofreu "eu não pretendo participar de nenhum movimento, porque sou médico, profissional liberal, sou cidadão campo-grandense, mas a luta tem que ser pelas idéias e não baixar o nível como aconteceu, fomos massacrados por causa disso".
OPINIÕES
Sócio da empresa de marketing e propaganda Remat, Eduardo Crivellente Neto é natural da cidade de São Paulo, mas há 30 anos mora em Campo Grande, e em se tratando da polêmica em relação à possível mudança de nome do Estado, Eduardo diz que a discussão foge da real necessidade do que realmente deveria ser feito. "Primeiro é preciso um trabalho para direcionar e esclarecer a nível nacional os 26 estado. Temos problemas em ser reconhecidos lá fora e não aqui dentro. Nunca se fez um trabalho de esclarecimento ou talvez uma campanha no Jornal Nacional mostrando onde realmente estamos e quem somos". O empresário também explica que o MS nunca se apresentou, tecnicamente, fora das fronteiras e que "a questão não é mudar ou deixar de mudar e sim promover uma campanha em cima do nome que se tem ou que vier a ter", finaliza Eduardo.
O sócio-diretor da Slogan publicidade, Henrique Alberto de Medeiros é contra a mudança do nome do Estado, "acho que está muito tarde para trocar, tinha que ter sido bem pensado na época, o problema de identidade é grande e a mudança não ajudaria e em relação a possível escolha da FIFA por Campo Grande, se o Estado tivesse o nome Pantanal, "acho que isso não tem a ver com a realidade, pois os fatores que definiram a Copa foram políticos". Henrique é jornalista e está na direção da Slogan desde 1983.
Prejuízos para a indústria
Na questão industrial, o Estado sofre prejuízos, pois "não temos sobrenome", afirma o presidente da Federação das Indústrias (FIEMS), Sergio Longen que ressalta os danos causados frente ao nome e ao horário, "em termos de desenvolvimento é considerável o prejuízo, porque perdemos financeiramente e moralmente, chega de atraso! Nome certo e hora certa, esse é o slogan da nossa campanha, precisamos ter identidade. É necessário utilizar o nome Pantanal para agregar valores aos nossos produtos e sem contar com a questão do turismo, o nome Pantanal é uma grande ferramenta de desenvolvimento", finaliza o presidente da FIEMS.
Deputado é contra
"Eu amo Mato Grosso do Sul", foi assim que o deputado estadual (MS) Marquinhos Trad deu início ao seu artigo enviado ao Jornal de Domingo. "Não há legitimidade para justificar o assassinato de Mato Grosso do Sul, se não fosse a Copa, ninguém discutiria esse assunto", indaga o Deputado que defende a não mudança do nome do Estado ressaltando que a idéia da mudança é "uma febre de consumo dos que reduzem um estado a um produto de supermercado: se não está vendendo, muda a embalagem para enganar o trouxa do consumidor." Marquinhos Trad afirma que o sul-mato-grossense já possui uma identidade com hábitos, costumes e uma história em cima do nome MS. "É precedente perigoso, uma vez que nada garante que o nome Pantanal venha a colar", justifica o Deputado em relação ao risco que ele considera se o Estado mudar de nome. Outra questão abordada pelo Deputado é em relação ao tamanho do Pantanal, "Mato Grosso do Sul é bem maior que o Pantanal, pois o Pantanal é parte do MS e não o contrário. Como será possível dizer, geograficamente, que uma pessoa está no Pantanal se ela não está?
Futebol apóia troca
Marco Tavares, vice-presidente da Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul (FFMS) afirma ser a favor da mudança do nome do Estado "sou partidário da mudança do nome de Mato Grosso do Sul para Pantanal. Sempre fui e continuarei sendo. Agregar ao nome do Estado a verdadeira relação com esse continente de águas e vida maravilhosa que é o pantanal somente nos trará benefícios. Nesse momento não devemos abrir uma caça as bruxas para descobrir culpados. Devemos continuar acreditando em nosso potencial. Eu não desisto nunca. Sou pantaneiro. Não
teremos a Copa, mas temos nossos filhos e nossos netos e talvez a eles caiba a tarefa de organizar uma outra Copa. Quem sabe?". Marco também ressalta as vantagens que o Estado terá mesmo sem sediar a Copa, "Acho que a grandeza da Copa no Brasil, não deixará de trilhar esse chão pantaneiro, onde os turistas virão para conhecer o verdadeiro Pantanal (Corumbá, Miranda, Passo da Lontra, Rio Negro e outros), além das águas fantásticas de Bonito", finaliza o vice-presidente.
Divisão nas ruas
O Jornal de Domingo foi às ruas de Campo Grande para saber a opinião da população em relação à possível mudança do nome do Estado do Mato Grosso do Sul. A enquete demonstra a diversidade de pensamentos e a falta de esclarecimento sobre o porquê da mudança e o que isso implicaria realmente pra a população. Um dos entrevistados, Márcio Guerrieri, vendedor de marketing, diz ser a favor da mudança, "acredito que vai divulgar mais, tanto interno como no exterior, vai enaltecer o nosso Estado, pois hoje quando você viaja para fora do Estado até nós mesmo dizemos que somos do Mato Grosso, o próprio sul-mato-grossense fala que é do Mato Grosso". Já o representante comercial José Carlos Nunzio diz ser contra, "pois vai envolver um gasto muito grande para trocar emplacamento de veículos e documentação, um gasto desnecessário. Eu morei no MT e pude observar a diferença, eles se vendem melhor do que nós, e lá fora, no exterior todos sabemos que Pantanal é no MT, porque isso é histórico, era um Estado só, então naquela época era bom ter colocado outro nome, agora é tarde". Em contrapartida o publicitário Luiz Eduardo Leão, 29, que também já morou no Mato Grosso, diz ser a favor da mudança desde o início, "A colonização nessa parte do País se deu por conta das minas de Cuiabá. Portanto, o nome "Mato Grosso" está ligado a eles. Por muito tempo (se é que ainda não o somos, ambos) fomos uma região predominantemente caracterizada por commodities, ou seja, sem industrialização relevante. Desculpe-me, mas pergunto: há alguma região no mundo com alta relevância econômica sendo exclusivamente produtora de alimentos? E como sermos lembrados sem alta relevância econômica?" O publicitário defende a questão de que é necessário uma identidade exclusiva, " mas todo "Junior" é lembrado por ser filho de alguém. Adotamos há mais ou menos 30 anos, erroneamente, um nome com forte ligação com o pai e não queremos ser confundidos com ele. Se pelo menos tivéssemos alta relevância econômica", finaliza Luiz Eduardo.
Já Ernesto Luís Piancó Morato Filho, 25 Anos, Técnico de Informática do Ministério da Saúde – DATASUS afirma achar muito apelativo o nome do Estado ter Pantanal, "sou a favor da mudança, até porque cria uma imagem mais separada do outro Mato Grosso, deixando um pouco de associar-se com o outro Estado. Mas este nome impondo como dono do Pantanal, acho apelativo, o Pantanal é um bem de todos (pelo menos na teoria). Poderia ser: Pantanal, Pantanal do Sul, algum nome de origem indígena, algum nome que tem na região do Pantanal", explica o técnico que continua sua indagação afirmando que Cuiabá foi mais esperta ao apresentar suas qualidades à FIFA", quando a comissão da FIFA veio à Campo Grande, foi levada pela cidade inteira. Lá o governador de MT quando chegou a comissão, nem deixou descer a comissão do avião, colocaram no Helicóptero e levaram para o Pantanal direto. Souberam vender melhor a imagem. Temos que assumir que souberam trabalhar melhor a imagem e tiveram mais influência e dinheiro para escolha lá, pois ter 30% do Pantanal, é ter 30% do Pantanal, pode ser menor, mas é Pantanal.
Essa briga para dizer que temos a maior parte é sem lógica, pois não estamos falando de uma pequena parte, estamos falando de 30% do Pantanal, algo muito considerável, devemos levar em consideração quem passou a melhor imagem do Pantanal, e MT soube passar melhor, mesmo tendo a menor parte. Não podemos esquecer que nosso Pantanal anda meio esquecido, os deles vivem dando dinheiro para eles. "Ter o maior e não saber usar, não adianta de nada", finaliza o técnico.
A CDL é uma das parceiras da Liga Pró Estado do Pantanal e na última sexta-feira aconteceu uma reunião para discutir a questão da mudança do nome e reforçar as opiniões.
Estado sofre crise de identidade
Depois que Mato Grosso do Sul dei-xou de ser sub-sede da Copa do Mundo de 2014, a mudança no nome do Estado voltou a ser discutida, principalmente no legislativo estadual. Os deputados se reuniram a sala da presidência na última quarta-feira, 03, e notou-se uma situação, mesmo entre os que são contra a mudança, a necessidade de um plebiscito.
O deputado estadual Paulo Corrêa (PR) relembra que essa discussão já fez parte várias vezes do cenário político e social de MS, mas que depois da derrota de Campo Grande por Cuiabá, o momento se torna propício para a discussão. "Está na hora do mundo saber direito que o Pantanal é aqui, deixamos diariamente de receber negócios, turistas e investimentos pela confusão com o (estado) vizinho, nós temos a maior parte do Pantanal, e somos sempre confundidos com Mato Grosso", declarou o deputado, dizendo ainda, que é a favor do plebiscito, que há anos defende a ideia.
Paulo Corrêa aproveitou a reunião com os parlamentares e lembrou que é autor da Lei de 2002 que autoriza o Estado a usa o Nome fantasia "Estado do Pantanal", mas que até hoje, ninguém se interessou em usá-lo.
Empresários, principalmente do trade turístico, também defendem a mudança, porque o Estado estaria perdendo muitos recursos para o Mato Grosso.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
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