terça-feira, 30 de junho de 2009

Cuiabá, nossa propaganda gratuita

GESIEL ROCHA, jornalista
(O EstadoMS, 30-06-200 - p.4)

Lembro-me perfeitamente da sensação que tive durante os jogosda Copa da Alemanha em 2006 ao ver, pela televisão, a imagem domajestoso Portão de Brandemburgo que se ilumina todas as noites como o mais significante símbolode Berlim. Lembro-me o quanto desejei visitá-lo e não sosseguei enquanto não toquei suas colunas e entendi que ele não separava a Berlim Ocidental da Oriental durante o período da divisão. Conto a experiência apenas para ilustrar profundo e incontestável poder que tem uma Copa do Mundo de atrair as pessoas para suas sedes antes,durante e depois dos jogos.
E qual a relação entre Berlim e Cuiabá? À primeira vista, muito pequena. Afinal, quando as TVs de mais de 190 países começarem a mostrar para mais de quatro bilhões de pessoas os símbolos do Brasil, antes e durante os jogos da Copa de 2014 certamente a Baía da Guanabara vista do Cristo e as dunas de Natal, por exemplo, serão as grandes estrelas. Mas não serão as únicas. Quem já teria ouvido falar, salvo exceções,em uma cidade do meio oeste da mesma Alemanha chamada Leipzig, não fosse o advento da Copa e de seleções como Espanha, França e Argentina terem disputado jogos por lá?
Creio que ninguém duvida do poder e do alcance da divulgação proporcionada pelos jogos de uma Copa do Mundo. Da mesma forma, não deve ser difícil acreditar que, mesmo entre Copacabana, Avenida Paulista, Lagoa da Pampulha, Pelourinho e todo o litoral nordestino, sobrará espaço para o Pantanal percorrer todos os continentes.
É evidente que imagens de nossos jacarés, onças, vitórias-régias e camalotes também vão fascinar telespectadores por todo o planeta que, cedo ou tarde, poderão desembarcar no Aeroporto de Guarulhos com destino a um certo Pantanal.
Mais do que isso, nossas garças e tuiuiús vão despertar o interesse de investidores atentos a oportunidades de negócios e com a visão de que os santuários ecológicos
constituem a grande “marca” no mercado do futuro. Vão chamar a atenção de membros de
organizações de alcance mundial convencidos de que tais lugares devem permanecer como estão. E se pensarmos domesticamente, há também os turistas, investidores e
organizações no próprio Brasil. E Cuiabá estará exatamente cumprindo esse papel: levando as imagens e o significado do Pantanal a todo o País e ao mundo.
E nós, aqui, de Mato Grosso do Sul, vamos assistir a tudo acontecer e ver Mato Grosso sufocar a nossa já mirrada condição de existir enquanto Estado “do Sul” e a
debilitada capacidade de mostrar que detemos 65% do Pantanal? Ou
vamos aproveitar o contexto exatamente a nosso favor? Não tenho dúvidas de que nos encontramos em um momento crucial e decisivo para o futuro do Estado entre ser o que muitos chamam de “apêndice de Mato Grosso” e um Estado com marca e identidade próprias. Nesse sentido, acredito termos dois caminhos. Primeiro: aceitamos de uma vez o nome Mato Grosso do Sul – cujo “do Sul” praticamente só nós mesmos, sul-mato-grossenses, sabemos que existe – e deixamos o Estado do norte sepultar nossa chance de aparecer para o mundo. Segundo: mudamos de nome, assumimos o Estado do Pantanal definitivamente e transformamos Cuiabá em nosso maior “garoto-propaganda” em âmbitos nacional e internacional, de forma inteiramente gratuita.
Concordo que a lógica inicial pode parecer ao mesmo tempo simplista e pretensiosa, como se bastasse mudar o nome para Pantanal e todos os frutos advindos da Copa caíssem “gratuitamente” na horta da população sul-mato-grossense. Não é tão simples, como dizem quase todos os estudiosos que se posicionam a favor ou contra a mudança: de nada adianta mudar o nome se não investirmos pesadamente para marcar presença nos
cenários regional e estadual, ou seja, para desenvolver de fato.
Mas é possível deduzir que, ao correr o mundo levando o nome do Pantanal, Cuiabá poderá prestar um incalculável serviço de divulgação a nosso favor, caso tenhamos a coragem de superar o conservadorismo e adotar o Estado do Pantanal. Vamos imaginar
que o turista em Berlin, o investidor em Hong Kong ou os membros de uma instituição sediada em Oxford sejam fascinados por nossos camalotes e, ao aprofundar as pesquisas para o desembarque em Guarulhos, descubram que Cuiabá fica lá, em Mato Grosso, e que existe o Estado do Pantanal, no qual está de fato o Pantanal.
Dedução e imaginação são muito pouco para se empreender um projeto como mudar o nome
de um Estado, pensando em mudar o seu destino. Mas certamente podem fazer muito mais do que o conservadorismo e o medo da mudança. E não haverá melhor oportunidade do que já.

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